Piny x Xullaji
“Não se trata de olhar como dar o salto — condição de outrora para sobreviver à repressão daqui, ou condição num agora para aqui chegar fugindo dessa mesma imposição noutros lugares. Não se trata de desafiar a linha para contrabandear — tão somente sobreviver na raia, nessa economia restante e transfronteiriça. Aqui, neste agora, Piny e Xullaji estão para coreografar e musicar o apagar da linha. Para isso é preciso apontar, escrever, desenhar um mural — como um muro estendido, que nem o de Berlim, que caiu num certo e feliz dia. Um mural de uma ponta à outra, fazendo cenário, onde ainda se escreve pela mão de joelhos de Piny, no embalo das lâminas enferrujadas de um kisanji nas mãos de Xullaji. Essa África ancestral de ambos está aqui dentro, mesmo longe no mapa do aqui e agora. É agora, porque a guerra progride, porque a invasão avança, porque a ganância do território é tornada lei. Pisa Piny! Pisa em nome das que são espezinhadas por quererem avançar. “No-bor-ders”, disparado em batidas silábicas para ser dançado na ancestralidade duma dança tornada urbana no acontecer mestiço. Sobre as palavras ditas e escritas se faz esta coreografia. “Repetition Is Not Decorative — It’s Deeply Ritual”, lê-se, ouve-se e dança-se.”
Texto de Ricardo Vicente Paredes (artigo completo no link)